Todas e Cada Uma

Por Fernando Lindote

Entre as imagens da mulher realizadas pela indústria da cultura ocidental, talvez uma das mais nauseantes seja a da boneca Barbie. Um dos modelos  determinantes do ideal feminino, sintoma angustiante de uma forma inatingível pela grande maioria das mulheres, Barbie, modelo e boneca, estão colocadas numa esfera do desejo de índice divino.

 

É como a uma divindade que cada mulher pode se relacionar com o ideal de Barbie. É na falta seminal do corpo real de cada mulher em relação ao corpo impossível da boneca que nasce o mistério fundador desta crença. Barbie está colocada eternamente, no horizonte da mulher em constante reforma física.

 

A forma da Barbie é blindada. Nada pode alterar as proporções e a aparência deste modelo. Eternamente jovem, pouco mais que adolescente, Barbie reina indiferente sobre a ruína dos corpos que mudam.

 

É no embate com esta imagem totalmente material mas sempre fugidia que Elisa Iop constrói sua ficção.

 

Não por acaso, a artista ataca primeiramente o corpo resistente da boneca. E na impossibilidade de alterá-lo, acrescente ao corpo ideal elementos adiposos, como se para marcar, ainda que provisoriamente, uma diferença, uma pequena cisão no molde canônico.

 

Vai alterando pouco a pouco a aparência da boneca, acrescentando matéria e fantasia. E a cada fim de processo, encontra, ironicamente, a imagem de uma deusa: Afrodite, Iemanjá ou Gaia. Como se por uma espécie de fatalidade, por mais esforço que se faça na construção de identidades particulares e irredutíveis, o ciclo iniciado por Barbie, remeta sempre a outra forma ideal, inalcançável.

 

Ao apresentar os registros das transformações da boneca, Elisa nos fala de cada uma das mulheres comuns. Nos fala das mulheres que mudam; que vestem fantasias parciais; que estão sempre inapelavelmente incompletas.Que sonham com algum ideal sempre fixado no horizonte de suas vidas.

 

Mas Elisa nos apresenta também a Barbie transformada em outras três deusas, e com isso, denuncia o substrato ideológico dissimulado como brinquedo inocente de meninas adolescentes.

 

Elisa Iop nos lembra das identidades contritas sob a aparência calma e eterna da Barbie. Mulheres e deusas envolvidas numa tensão da linguagem, onde o mistério de todas e de cada uma permanece na espera de nosso entendimento.  


Fernando Lindote